Instituto de Arquitetura e Urbanismo de São Carlos

O social na arquitetura

João-Marcos--O-social-na-arquitetura

Obras de construção escondem um mundo repleto de histórias curiosas e fascinantes sobre os diversos personagens sociais envolvidos nelas, sendo esses bastidores responsáveis por desenhar o modo de produção e a economia que rege os tempos atuais.

O universo "oculto" do trabalho operário e de todos os personagens sociais que o compõem sempre foi de interesse do docente do Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU/USP), João Marcos de Almeida Lopes. Formado em 1982, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/USP), desde a graduação ele tem um interesse genuíno em pesquisas relacionadas ao trabalho operário e, paralelamente, por questões tecnológicas relacionadas à arquitetura, e como esta última se constrói conforme essas questões aparecem.

A carreira docente de João Marcos teve início logo depois de se formar, em 1983. Foi quando ele começou a ministrar aulas de estruturas para alunos de graduação na Faculdade de Belas Artes de São Paulo. Nessa época, o docente participou de um laboratório de habitação, no qual existia um trabalho fortemente centrado no apoio a organizações que se dispunham a trabalhar em mutirão para construir conjuntos habitacionais a famílias com poucos recursos.

Seis anos depois disso, ele passou a fazer parte de um grupo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), dedicado à produção de moradias a pessoas carentes. "Trabalhei pouco mais de um ano nesse grupo, como arquiteto mesmo, embora fosse um trabalho que envolvesse pesquisa. Foi um aprendizado muito grande! Pouco depois, em 1990, eu e outros colegas, que também eram parte desse grupo, fundamos uma Organização Não-Governamental chamada 'Usina', que existe até hoje, inclusive", relembra João Marcos.

Foi nesse período que ele "mergulhou" em uma realidade muitas vezes desconhecida no mundo universitário, e teve a oportunidade de se aprofundar em políticas públicas e habitacionais, acompanhando todos os processos de implantação e implementação de diversos conjuntos habitacionais, tendo acesso às histórias dos moradores desses conjuntos. "A Usina é meu ponto de vista privilegiado, pois, até hoje, ela continua trabalhando com isso. E o trabalho realizado lá eu transformei em um de meus projetos, através do qual busco compreender os aspectos técnicos que estão atrelados aos aspectos políticos por trás dos empreendimentos. Minha tese é justamente dizer que não existe técnica sem política, e vice-versa", afirma o docente.

Diferentes trajetórias, diferentes projetos

O aspecto social da pesquisa de João, fortemente trabalhado em seu mestrado no IAU, e mais ainda em seu doutorado em Filosofia na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), é até hoje o foco de suas pesquisas. "Caminhei muito no sentido de uma certa abstração do que é a técnica, depois de adentrar o mundo da filosofia, e parti para um caminho mais essencialista. Em minha livre-docência, consegui novamente trazer a discussão da relação social com a técnica através desse percurso do trabalho com a moradia", relembra.

Pensar a técnica como prática política foi o foco escolhido pelo docente para todos os seus estudos, pesquisando as relações de produção que envolvem a arquitetura e, sobretudo, a tensão que as permeia. "Todas as dinâmicas de produção interferem em nosso cotidiano, por mais que imaginemos que não. O operário da obra tem família, faz compras, passeia, é uma pessoa que, como nós, tem uma vida econômica. A economia nada mais é do que a política na relação entre as pessoas", elucida.

João-Marcos--O-social-na-arquitetura-1

João Marcos de Almeida Lopes (créditos: Paulo Victor Souza Ceneviva)

Um de seus projetos tem como objeto de estudo o arquiteto e artista plástico Sérgio Ferro, cuja produção intelectual é significativa e, sobretudo, original, e discute a questão do trabalho livre e a satisfação que pode ser trazida por ele. "Para Ferro, na pintura, essa satisfação é alcançada mais facilmente, visto que o artista tem mais liberdade na execução de sua obra. O mesmo não acontece com o arquiteto, que está preso a uma série de teias que condicionam e constrangem seu trabalho", explica.

O docente conta que, desde 2014, ele e uma equipe de pesquisadores observaram um crescente interesse pela obra de Ferro em países com falantes da língua inglesa, o que tem aumentado o reconhecimento pelo trabalho do arquiteto. Diante disso, João Marcos e outros dois pesquisadores* elaboraram o projeto Translating Ferro/ Translating Knowledges: cross-cultural studies in art, architecture and free work, para traduzir e difundir os textos mais importantes de Ferro para o inglês. O projeto, que deverá ser financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e o British Research Council, tem como ideia principal, além da tradução e difusão, também incitar o desenvolvimento de pesquisas na área de production studies, promovendo debates e discussões acerca do assunto e, claro, das obras de Ferro. "Será uma pesquisa que promoverá outras. Temos 16 pesquisadores envolvidos diretamente nesse projeto, que é complexo, mas empolgante, pois é muito bom poder contribuir para difundir a obra de um grande pensador brasileiro no campo da arquitetura".

Sem perder o foco no social, João Marcos também está envolvido na elaboração de outros dois projetos: um deles temático, que deverá ser coordenado pela docente do IAU, Akemi Ino, e o outro intitulado "Sistema de fabricação leve para produção autogestionária de edifícios habitacionais altos", além do projeto "Habitação popular e Tecnologia da Construção: Técnica e Arquitetura como Prática Política - interações entre tecnologia da arquitetura e políticas públicas de provisão habitacional", todos visando a melhoras infraestruturais, materiais e, obviamente, sociais nos canteiros de obras e nas construções.

Recém-nomeado professor titular do IAU, João Marcos ganha novo fôlego para prosseguir com seus projetos, sempre buscando trazer um olhar mais profundo e instigante que se esconde por trás do barulho das britadeiras e retroescavadeiras.

*Katie Lloyd Thomas (School of Architecture and Landscape – University of Newcastle) e Silke Kapp (Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais)

Previous Next
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
leia mais
História viva do IAU: Fátima Mininel _ Uma bonita menina de 16 anos queria começar a trabalhar e a ganhar o próprio dinheiro. Seu pai, que já trabalhava na Universidade de São...
leia mais
leia mais
Manifestação das entidades de arquitetura _ O Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), a Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA), a Associação Brasileira de Ensino de...
leia mais
leia mais
Nem tudo que reluz é ouro: o alto impacto ambiental de edifícios corporativos   "Por fora, bela viola. Por dentro, pão bolorento". O famoso ditado popular encaixa-se quase que perfeitamente aos edifícios corporativos...
leia mais
leia mais
Aluno do IAU realiza exposição com realidade aumentada O aluno de iniciação científica do Grupo de Pesquisa NOMADS, do Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU/USP), Lucas Edson Chico, realizou uma...
leia mais
leia mais
O social na arquitetura Obras de construção escondem um mundo repleto de histórias curiosas e fascinantes sobre os diversos personagens sociais envolvidos nelas, sendo...
leia mais
leia mais
Trabalho de docentes do IAU recebe prêmio Os docentes do Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU/USP), Marcel Fantin e Jeferson Cristiano Tavares, o docente da Universidade Federal da...
leia mais
leia mais
História viva do IAU: Antonio João Tessarin Grande parte dos funcionários do Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU/USP) acompanhou de perto o nascimento do IAU, em 2010, sendo...
leia mais
leia mais
Construir mais prédios realmente torna as cidades mais inclusivas? A verticalização das cidades é realmente um fator importante para proporcionar a inclusão social? Em que medida processos de verticalização...
leia mais
leia mais
Imagens da palestra para apresentação da proposta vencedora do projeto do Bloco Didático do IAU No último dia 19 de junho, às 14 horas, no Atelier 3 do Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU/USP), foi realizada a apresentação da proposta...
leia mais
leia mais
PRCEU/USP premia dois projetos de empreededorismo social do IAU A valorização da interação entre universidade e sociedade tem sido uma preocupação prioritária na Universidade de São Paulo (USP). Prova disso...
leia mais
leia mais
Atendimento psicossocial no IAU: atualização do local e do horário de atendimento A partir do próximo dia 19 de junho, o Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU/USP) contará com um serviço de acolhimento psicossocial para...
leia mais