Sobre a Abertura das Comemorações 10+35+50 e o Colóquio Jorge O. Caron

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_ O Colóquio Jorge Caron, ocorrido em 25 e 26 de agosto de 2020, abriu as comemorações do biênio celebrando os 10 anos do Instituto de Arquitetura e Urbanismo, 35 anos do seu curso de graduação e 50 anos do seu programa de pós-graduação. Realizado de modo remoto, reuniu ex-colegas, ex-alunas e ex-alunos, docentes e alunas e alunos atuais do IAU. O evento permitiu, mesmo em tempos de distanciamento social, revigorar laços de proximidade, afinidade e identidades, ao mesmo tempo que refletir sobre a trajetória profissional - ou parte dela, pelo menos - de Jorge Caron, reunindo depoimentos relevantes e quase sempre marcados pelo afeto e carinho dos que com ele conviveram.

Na mesa de abertura das celebrações, o Diretor do IAU, Prof. Joubert Lancha, mencionou as comemorações e os eventos, palestras, debates e exposições a serem realizados, iniciando com o Colóquio sobre Caron, e também lembrou do "Projeto Memória do IAU", ora em elaboração, que vem registrando depoimentos e levantando documentos da história dos cursos de pós-graduação e graduação em arquitetura e urbanismo do IAU.

Jorge Caron foi um profissional polivalente - arquiteto, educador, cenógrafo, designer, cineasta, artista plástico -, cujo legado amplo e diverso foi revisitado, contextualizado e debatido ao longo do Colóquio. Em sua fala na mesa de abertura, o Vice-Diretor do IAU, Prof. Miguel Buzzar relembrou a atuação política de Caron junto ao Sindicato dos Arquitetos de São Paulo, em meados dos anos 1970, enquanto o Reitor, Prof. Vahan Agopyan, destacou seu perfil interdisciplinar tão almejado para o profissional deste século.

O Colóquio foi uma excelente oportunidade para homenagear o docente que dedicou parte importante de sua trajetória profissional ao ensino de arquitetura, com as comemorações sendo abertas no auditório cujo interior ele redesenhou e que hoje tem seu nome. O Prof. Carlos Roberto Monteiro de Andrade, do IAU-USP – idealizador e organizador do Colóquio, juntamente com a Profa. Amanda Saba Ruggiero, também do IAU –, fez a abertura do Colóquio, retomando a importância do arquiteto, educador e humanista que foi Caron, assim como seu espírito "beatnik", ao lado da viúva de Caron, arquiteta e designer Suely Russo Paes de Barros, que lembrou com carinho do ex-companheiro.

A Profa. Amanda Saba Ruggiero, em sua palestra de abertura, apresentou um panorama da obra e do legado profissional de Jorge Caron, em uma perspectiva histórica, apontando os diversos temas, aspectos e relações, alguns dos quais seriam abordados ao longo do Colóquio. O debate sobre o Desenho no Ensino de Arquitetura teve na fala dos arquitetos e professores Paulo Castral, do IAU e Paulo Von Poser, da escola da Cidade e também artista-plástico, um rico diálogo acompanhado pela análise de desenhos de figurinos, cenários e móveis de Caron.

Na quarta-feira, 26 de agosto, pela manhã, a Profa. da FAU-USP, Mônica Junqueira de Camargo, recuperou o contexto da formação de Jorge Caron, desde o espaço do edifício da FAU-USP na Rua Maranhão, com seu ateliê integrado, passando pela cultura arquitetônica paulistana dos anos 1960, com marcada presença de Carlos Millan, dentre outros. Destacou ainda o envolvimento de Caron na criação de novos cursos de arquitetura, em que a cidade constitui seu principal laboratório de ensino. Já o Prof. Luis Espallargas Gimenez, do IAU-USP, abordando o tema da torre, fez um histórico desse elemento arquitetônico, indo da Torre de Babel às atuais torres de telecomunicações, passando por Eiffel, Mies, Tátlin, BBPR, Lucio Costa, em um quadro bastante rico do tipo, para se debruçar com maior atenção sobre o projeto da Torre da TV Cultura na Cidade de São Paulo, projetada por Caron, e que é um importante marco na paisagem da capital paulista.

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Torre da Tv Cultura na capital de São Paulo. Croquis de Jorge O. Caron.

Ainda nessa manhã de quarta, o arquiteto José Carlos Serroni, responsável por vários projetos cenográficos e professor da "SP - Escola de Teatro", enfatizou o experimentalismo de Caron com seus figurinos e cenários, e seu caráter múltiplo como artista e como cenógrafo, chamando a atenção para seus desenhos nesse campo, sintéticos e precisos. Prof. Paulo Roberto Masseran, da FAAC-UNESP, retomou a tese de doutorado de Jorge Caron, "Território do Espelho - a arquitetura e o espetáculo teatral", defendida junto à FAU-USP em 1994. Dela Masseran retomou a observação de Caron, de que quando o teatro começa, a arquitetura desaparece, a par os campos expressivos distintos da arquitetura e do teatro.

A tarde do dia 26 foi iniciada com os depoimentos dos professores João Marcos de Almeida Lopes e Eulalia Portela Negrelos, recuperando a memória do curso de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Belas Artes, em São Paulo, experiência concebida e implementada por Caron. O Prof. João Marcos destacou o papel das atividades de extensão que o curso manteve até seu fechamento autoritário e brusco pela própria mantenedora, em 1986, interrompendo uma experiência pedagógica renovadora e que teve ressonâncias importantes no ensino de arquitetura e urbanismo em São Paulo. Tendo trabalhado junto ao Laboratório de Habitação - assim como Eulalia, então como aluna -, João Marcos ressaltou algumas realizações desse laboratório, que levou alunos e professores para as periferias urbanas, e não apenas como observadores, e cujas atividades formaram uma geração de assessores técnicos de movimentos populares por habitação. A Profa. Eulalia, em um depoimento saudoso e emotivo, recordou a estrutura das disciplinas do curso e seus docentes, parte dos quais bem jovens, mas também muitos com larga experiência profissional, que alcançaram uma sintonia pedagógica rara, que se fazia no espaço do edifício projetado por Ramos de Azevedo e Domiziano Rossi para sediar o Liceu de artes e Ofícios, e também em seus arredores em plena Luz.

Na última mesa do Colóquio, os professores Azael Rangel Camargo, um dos criadores do curso de arquitetura do IAU, já aposentado, e também Manoel Rodrigues Alves, também do IAU, trouxeram seus depoimentos pessoais assinalando as contribuições que Caron deu para o curso de arquitetura e urbanismo ao qual ele se vinculou a partir de 1987 até seu falecimento em 2000. Caron aí atuou de modo intenso, repropondo a ideia do ateliê integrado, colaborando com projetos de arquitetura para o campus de São Carlos, como o do Portal da Área 1, junto à marginal do Tijuco Preto, formulando a proposta de um novo curso, de Design – infelizmente não implementado –, concebendo a disciplina de Paisagismo como campo disciplinar específico da arquitetura. Em sua fala o Prof Azael também historiou a criação do curso de arquitetura e urbanismo em 1985, então junto à EESC, e o ingresso de Caron como docente especial devido sua experiência profissional consagrada. O Prof. Manoel, ao encerrar seu depoimento, relembrou os últimos dias de seu colega e também amigo, emocionando a muitas e muitos, com vivas lembranças.

Com o Colóquio Jorge O. Caron espera-se não apenas ter contribuído para a divulgação de sua obra, trazendo depoimentos e reflexões sobre a mesma, suscitando novos estudos a respeito, mas também termos homenageado um colega cuja trajetória profissional foi exemplar e profundamente criativa, engajada politicamente e com explícito compromisso social, em uma perspectiva crítica, humanista e transformadora.

Amanda Saba Ruggiero
Carlos Roberto M. de Andrade

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Torre da Tv Cultura na capital de São Paulo. Projeto de Jorge O. Caron. Foto: Fernando Atique.