• 01
  • 02
  • 03

Apresentação

mortadela

O LEAUC tem como foco de seu trabalho a investigação da cidade contemporânea, seus processos de conformação e transformações espaciais, suas espacialidades, novas formas de sociabilidade e expressão cultural no meio ambiente urbano.No sentido de melhor contextualizar a reflexão sobre a produção do espaço urbano e as relações entre suas territorialidades e sociabilidades, em particular sobre as formas de empresariamento da cidade, suas implicações e desdobramentos, o grupo tem por objetivo discutir e analisar conceitos, processos e contextos no Brasil contemporâneo, a partir de três eixos de pesquisa: Cidade, Habitação e Desigualdade; Conformações Espaciais Urbanas; Produção da Cidade e Produção da Cultura. Esses eixos são investigados a partir da interrogação sobre o ineditismo e as especificidades do presente tal como pulsam ou não em cada um. O LEAUC, composto por pesquisadores e alunos do IAU-USP, conta com a participação de colaboradores externos, nacionais e internacionais, e se constituiu a partir de grupo de discussão sobre questões da cidade contemporânea organizado pelos professores Manoel Rodrigues Alves e Cibele Saliba Rizek, tendo sido cadastrado no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq em 2009.

A cidade e suas novas manifestações, suas espacialidades distintas ou seus padrões diferenciados de expansão territorial, oferecem um conjunto de fragmentações reais e aparentes, crescimentos não harmônicos, deslocamentos e desdobramentos de centralidades, entre outros elementos ainda pouco conhecidos e explicados. Essas manifestações inéditas fazem pensar, em um extremo, no fim da cidade planificável - seja em suas atribuições de civilidade, sociabilidade, governabilidade e gestão - e, em outro, no restabelecimento das entropias e sinergias necessárias aos estados híbridos de situações urbanas hoje detetáveis.

A cidade contemporânea, submetida a significativos processos de transformações sociais, culturais e tecnológicos, condicionada por um discurso privativista e pela mensagem niveladora da mídia, requer a revisão de ações e intervenções e suas resultantes espaciais, bem como dos modos de sua compreensão. Ao mesmo tempo em que se confronta com a tendência totalizante do capital sobre a cultura e com um processo de estetização crescente de todas as esferas da vida, o pensamento contemporâneo reivindica o reconhecimento de uma pluralidade de práticas sociais.

Essa cidade caracteriza-se enquanto uma cidade entremeada de elementos textuais e não textuais, morfológicos e não morfológicos que interrogam as interpretações, os modos de uso e apropriações da paisagem urbana, acarretando assim ‘novas’ possibilidades de configuração do espaço das cidades. As tipologias urbanas, os padrões de comportamento social, as normas e práticas de planejamento, assim como as propostas de distinção territorial entre o público e o privado não são mais suficientes para responder adequadamente aos eventos de uma cidade que migra de paradigmas instabilizados para ‘territorialidades difusas’ e indeterminadas.

Nesse cenário, conflitando com as condições sociais que contribuiu para produzir e reproduzir, a produção do espaço urbano contemporâneo responde mais à necessidade de manter vivo o circuito de produção, circulação e consumo de mercadorias num mundo altamente mercantilizado, do que primordialmente responder às necessidades humanas no tempo, no espaço e no cotidiano.

Desse modo é crescentemente perceptível uma espacialidade do ócio e do consumo caracterizada por modelos e padrões similares de intervenção na produção de um meio urbano para ser visitado intensivamente, produtor de paisagens a-territoriais caracterizadas pela espacialização econômica e funcional do território: em todos os lugares paisagens de lugar nenhum. Além disso, desde há muito, assistimos aos excessos, às reduções e aos equívocos de um urbanismo que, por um lado, segrega funções e classes sociais e, por outro, pauta uma pretensa sustentabilidade do meio ambiente urbano na definição de uma nova mercadoria de consumo: a cidade contemporânea.

Nessa cidade, os processos de sustentabilidade - noção polimorfa e polissêmica - urbana requerem tanto uma reflexão das condições dos universos referenciais hoje culturalmente instalados quanto a formulação de argumentos que permitam a análise de situações espaciais concretas condicionadas por dimensões heterodoxas, de natureza múltipla e bastante diversificada da cidade contemporânea. Diante desse quadro, os enfoques estritamente arquitetônicos seriam, então, redutores dos fenômenos que se constituem como alvos da elaboração empírica e conceitual. As territorialidades urbanas contemporâneas nos desafiam nas tensões entre domínios, legalidades, usos e práticas urbanas, aportando novas interpretações na relação entre morfologias urbanas, tecidos sociais, comportamentos e construções conceituais, para além dos modelos e conceitos instituídos na Arquitetura, no Urbanismo e nas Ciências Sociais. Em uma cidade emergente e difusa entremeada em textualidades inéditas, que requerem outras leituras e resignificações, coloca-se a necessidade de novos marcos conceituais e de novas interpretações distintos daqueles instituídos pela Arquitetura, pelo Urbanismo e pela Urbanística.

Abordar as problemáticas urbanas de hoje requer novas proposições, formas e parâmetros de qualidade de vida nas dinâmicas atuais de transformação territorial, em contextos de mundialização e de localização de cidade e urbanidade além de problematizar as relações entre dimensões culturais e produção da cidade, o que evidencia a necessidade de perceber as relações entre arquitetura e cidade para além das relações entre texto / contexto, na riqueza de suas múltiplas dimensões. Portanto, faz-se necessário trabalhar a reflexão quanto a nexos e elementos da conformação urbana - ou seja, aspectos de transformação do meio ambiente urbano, de sua paisagem e de processos relativos ao seu contexto e à sua produção.

Parece-nos, assim, pertinente que, no estabelecimento de um nexo com o ambiente, investiguemos novas abordagens teóricas sobre a relação entre as dimensões socioculturais e as dimensões físicas, funcionais e ambientais do espaço urbano. Nesse sentido, iniciativas e propostas transdisciplinares apontam para um caminho onde o afloramento de um pensamento conceitual mais múltiplo parece estimular a criatividade e invenção em oposição a um pensamento vigente calcado em “leis”, “normas” e efeitos imagéticos que deixam a desejar no processo de enfrentamento do mundo contemporâneo. Em meio a esse conjunto de indagações e problemáticas da cultura e da cidade, bem como da produção de sentidos e significações nas relações natureza/cultura, é que situamos nosso trabalho, buscando estabelecer outros enfoques e transdisciplinaridades que ampliem e possibilitem uma melhor compreensão dos fenômenos urbanos contemporâneos.