Instituto de Arquitetura e Urbanismo de São Carlos

"Como pensar num mundo a caminho do obscurantismo", por Paulo Fujioka

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O IAU ainda é uma escola jovem, enquanto unidade USP, em comparação com algumas instituições centenárias. Mas nesse breve tempo de vida, todas as personalidades convidadas para as aulas inaugurais causaram um impacto considerável na visão de mundo dos alunos, chegando a afetar até mesmo as escolhas de temas de TGI e de Pós-Graduação.

A aula inaugural da Graduação de 2019 continuou esta tradição, mas trouxe ao evento um patamar novo, com a dinâmica nova proposta por Hector Vigliecca, de maior engajamento com os alunos, tentando romper o formalismo mestre-aluno usual, e que reflete a forma de pensar e trabalhar do arquiteto em seu atelier, que sempre foi uma escola, uma continuação do curso de arquitetura.

Portanto, esta proposta de aula inaugural foi resultado de sua intensa, mas habitual reflexão da prática de projeto, e do que é ensinar arquitetura, e de como o arquiteto deve responder, de forma original e provocadora, às circunstâncias do momento histórico – daí o título "Como pensar em um mundo a caminho do obscurantismo – Qual é o sentido de uma reflexão transformadora".

A resposta não é trabalhada de forma linear, mas através de provocações: "Como podemos trabalhar com objetivos onde os limites e os tempos parecem indefinidos?" "Qual é o sentido de uma reflexão transformadora?" "Como definir e encontrar sabedoria?" que também não são respondidas com fórmulas e guias de procedimentos; parte-se do quadro desalentador da situação atual para apontar caminhos de diversas abordagens, para elaborar o conceito de "sabedoria de projeto", que culmina num outro conceito pessoal iluminador, o do "salto interpretativo" que resolve a charada.

Vigliecca mostra alguns exemplos das duas proposições. E a seguir, o arquiteto mostra como este salto interpretativo foi decisivo em alguns de seus projetos mais conhecidos de arquitetura na escala urbana.

É raro encontrar textos ou palestras em que um arquiteto brasileiro moderno descreva seu processo de trabalho. Vigliecca não apenas discute sua forma original de abordar o projeto, como também comenta uma bibliografia, também muito original e variada, erudita e provocante. E que não causaria surpresa entre bons arquitetos de prancheta, de quem sempre encontramos uma abordagem humanista e uma visão mais aberta de mundo.

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Durante toda a aula, Hector procurou provocar a plateia, tentando romper a formalidade do evento, mas estávamos curiosos demais em ver como se concluiria a apresentação. Mantivemos a ideia da aula inaugural em que haveria uma rodada de perguntas no padrão acadêmico, seguido de uma conversa mais informal, fora do auditório, onde seria possível um contato mais próximo com o arquiteto.

A rodada inicial propiciou perguntas incisivas, mostrando a reação atenta por parte dos alunos, sendo notável a defesa por Vigliecca da responsabilidade do arquiteto em propor uma solução de arquitetura, e não apenas atender necessidades técnicas. E na conversa ao ar livre foi possível se aprofundar em questões levantadas na aula e esclarecer uma questão importante, mas ausente da apresentação, como a formação do arquiteto em suas circunstâncias históricas, as influências e inspirações, a educação musical erudita, relações entre música e arquitetura. Perguntas atiladas que também tiveram respostas instigantes e provocadoras. Infelizmente não há espaço disponível aqui para comentar tudo que foi abordado. E seria necessário um tempo maior de sedimentação e reflexão para tal.

O arquiteto cobrou a falta de perguntas vindas de seus ex-colaboradores, eu e o Prof. Givaldo. Este respondeu pelos dois ao justificar que, num primeiro momento, ficava difícil pela nossa proximidade com ele, a vivência num atelier que era uma escola, e pelo impacto da aula (em que pudemos rememorar algumas questões levantadas no dia a dia do escritório). De fato, pessoalmente, trabalhar com Hector, como recém-formado, representou uma continuação da educação do arquiteto, um constante aprender e reaprender arquitetura, pois era e é um atelier-escola. Assistir a sua apresentação foi como reviver aqueles anos, onde todo dia era uma aula, às vezes angustiante, mas sempre entusiasmada, de arquitetura.

Muitos arquitetos já leram e ouviram, da parte de muitos professores desde a Graduação, que a solução de projeto não deve partir apenas da experiência prática de prancheta, ou do conhecimento do repertório, ou da cultura de referências projetuais; mas também em referências das ideias de historiadores, filósofos, escritores, poetas, pintores, escultores, compositores e performers musicais. Tais experiências podem despertar, alertar, destacar e traduzir inquietações, olhares, luzes, focos, pistas; elementos de uma prática sempre difícil, para qualquer arquiteto.

Ou seja, iluminar o que faltava para chegar na decisão de projeto, que se desenvolverá depois com a crença firme no acerto da solução e a segurança de poder defender de público a solução projetual. Ao longo da trajetória pessoal, ouvimos esta recomendação daqueles professores arquitetos que, frequentemente, são os que mais admiramos. Mas estes conselhos podem esbarrar por vezes, em nossa falta de vivência, leitura e experiência profissional quando jovens. Só com o tempo pode-se tentar entender ou incorporar tais práticas, se possível.

Hector Vigliecca teve a generosidade de compartilhar com os alunos e professores desta escola o caminho das pedras de seu processo de projeto, que em seu caso é fruto de uma intensa vivência passional e erudita, do projetar. Um processo de reflexão e desenho em tempo integral, percebendo e dialogando com outras luzes, e vozes como o da música (e dos músicos), da literatura, filosofia, história, artes, que podem contribuir ativamente para esta proposta ousada, provocadora do "salto interpretativo", de imenso potencial para o enriquecimento e refinamento do projeto. Diálogos que potencializam um desenhar mais rico e aprofundado. Daí a arquitetura se tornar uma paixão, pois absorve, ocupa e consome obsessivamente o tempo todo. Nunca nada está bom, pois sempre pode ser melhorado.

Portanto, só podemos agradecer ao arquiteto e professor pelo seu esforço de aula, pela grande alegria que sentimos ao assisti-la; e pelo ensinamento integral de arquitetura e projeto que ofereceu aos alunos, através de uma didática totalmente original e inusitada.

Texto: Paulo Fujioka (docente do IAU)

Imagens:

- Imagem 1: Hector Vigliecca  (à esq.) e Paulo Fugioka (créditos: Paulo Vitor de Souza Ceneviva)

- Imagem 2: Público presente na aula inaugural (créditos: Paulo Vitor de Souza Ceneviva)